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sábado, 23 de março de 2013

Obesidade pode virar problema também no Japão

As mudanças no padrão alimentar mundial a partir da década de 1950 fizeram com que a obesidade se tornasse uma doença epidemiologicamente importante em todo o mundo

O Japão tem hoje taxas de obesidade infanto-juvenil elevadas, ainda que menores do que as do Estados Unidos ou do Brasil, mas esses índices têm piorado

Agência FAPESP, de Tóquio – O Japão, um dos países que ainda mantêm índices de obesidade abaixo da média mundial, corre o risco de também enfrentar o problema de aumento da população com peso acima dos padrões considerados normais. Isso porque nas últimas décadas o modo de alimentação tradicional japonês tem se modificado, especialmente com a adoção da fast food.
“O Japão tem hoje taxas de obesidade infanto-juvenil elevadas, ainda que menores do que as do Estados Unidos ou do Brasil, principalmente porque a população mais idosa consegue manter o padrão alimentar tradicional japonês, que valoriza o consumo de peixes e vegetais”, disse Lício Augusto Velloso, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
“Os japoneses estão preocupados com esse fenômeno. Depois que a criança e o jovem se acostumam com um padrão alimentar é muito difícil fazer com que retornem ao estilo tradicional de alimentação”, afirmou.
O pesquisador proferiu uma conferência no Simpósio Japão-Brasil sobre Colaboração Científica, organizado pela FAPESP e pela Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência (JSPS), entre 15 e 16 de março na Universidade Rikkyo, com apoio da Embaixada do Brasil em Tóquio.
As mudanças no padrão alimentar mundial a partir da década de 1950 fizeram com que a obesidade se tornasse uma doença epidemiologicamente importante em todo o mundo. Ao mesmo tempo em que as grandes indústrias alimentícias começaram a desenvolver tecnologias que melhoraram a produção de alimentos, também se registrou o aumento da composição de gordura saturada na dieta da população de diversos países, contribuindo para que a obesidade se tornasse uma doença epidemiologicamente importante em todo o mundo.
De acordo com Velloso, até recentemente se acreditava que, pelo fato de a gordura saturada ter um valor calórico muito alto, a ingestão de grandes quantidades de gordura por meio do consumo de alimentos industrializados causasse, por si só, a obesidade.
O grupo de pesquisa que ele coordena descobriu, no entanto, que o consumo em excesso de gordura saturada também causa uma inflamação no hipotálamo, que faz com que os neurônios dessa região do cérebro – que controlam a fome e o equilíbrio energético humano – funcionem de forma anômala. Com isso, as pessoas obesas perdem a capacidade de controlar adequadamente a fome e passam a comer cada vez mais.
A descoberta, realizada no âmbito de uma pesquisa apoiada pela FAPESP, foi publicada em 2005 na revista Endocrinology, da Sociedade Americana de Endocrinologia.
“Esse foi o grande avanço na pesquisa sobre as causas da obesidade que obtivemos nos últimos anos, que demonstrou como a gordura – não apenas por ser rica em calorias, mas também por promover danos neuronais – contribui para que as pessoas se tornem cada vez mais obesas”, ressaltou Velloso.
Segundo o pesquisador, pelo fato de ser quimicamente muito rígida, a gordura saturada tem a capacidade de desenvolver inflamação em diversos tecidos, inclusive no cérebro humano, órgão muito sofisticado do ponto de vista biológico.
Qualquer processo inflamatório na região onde estão situados os neurônios que controlam a fome, por menor que seja, acaba por afetar o funcionamento das células cerebrais.
“Quando há uma inflamação no hipotálamo causada pelo consumo em excesso de gordura saturada, os neurônios não conseguem mais produzir neurotransmissores necessários para o controle da fome”, explicou Velloso.
O jejum prolongado faz com que os neurônios produzam um neurotransmissor chamado NPY que, disponível em grandes quantidades no hipotálamo, provoca a fome.
Quando a fome é saciada, o cérebro humano recebe uma mensagem de diversos “remetentes” – como do próprio estômago e dos nutrientes absorvidos dos alimentos –, que leva os neurônios a parar de produzir NPY e a fabricar outro neurotransmissor, denominado PONC, que dá a sensação de saciedade.
O equilíbrio e a oscilação dos dois neurotransmissores é o mecanismo fisiológico de controle que faz com que os seres humanos tenham ciclos de fome e saciedade.
“Se o neurônio não funciona bem – como quando o hipotálamo está inflamado em razão da ingestão em excesso de gordura saturada –, a célula não consegue regular direito essas produções de neurotransmissores e começa a funcionar de forma atrapalhada”, explicou Velloso.
Desenvolvimento de fármacos
A descoberta de que o consumo em excesso de gordura saturada atrapalha o funcionamento da região do cérebro humano que controla a fome abre a possibilidade de encontrar alvos para medicamentos mais eficientes para tratar a obesidade.
Isso porque, segundo Velloso, nenhum dos medicamentos disponíveis no mercado para combater o acúmulo de peso age nessa região do cérebro.
“Hoje, não há um medicamento bom para obesidade. Estamos começando a entender onde e como uma nova droga deveria agir, o que facilita um pouco o trabalho do desenvolvimento de compostos com esse tipo de função”, afirmou.
As anfetaminas, por exemplo, que nos últimos anos começaram a ser banidas em diversos países, inclusive no Brasil, pertencem ao mesmo grupo de drogas que a cocaína, agindo no sistema nervoso central e causando dependência química. Além disso, as anfetaminas também têm efeitos colaterais parecidos com os causados pela cocaína, como aumento do ritmo de batimentos cardíacos e da pressão arterial.
“Uma droga ideal para a obesidade deve agir especificamente nos neurônios do hipotálamo, diminuir a inflamação e melhorar o funcionamento deles, sem apresentar efeitos colaterais como os das anfetaminas”, avaliou Velloso.
Com a descoberta de que a inflamação no hipotálamo causada pelo consumo em excesso de gordura saturada é uma das principais causas da obesidade, o grupo da Unicamp tem se dedicado a entender melhor a parte biológica da inflamação. Isso porque nem toda inflamação é igual. “Cada tipo apresenta características peculiares”, disse Velloso.
Por meio de um Projeto Temático, apoiado pela FAPESP, os pesquisadores pretendem caracterizar esse tipo de inflamação, entender melhor como ela ocorre e encontrar uma forma de solucioná-la pela via nutricional.
“Sabemos que, da mesma forma que há gorduras saturadas que promovem inflamação no hipotálamo, existem gorduras insaturadas, como os ômegas, que revertem em parte essa inflamação”, disse Velloso.
“Talvez se consiga encontrar substitutos alimentares que possam ser enriquecidos na dieta e que revertam, pelo menos em parte, esse processo inflamatório”, estimou Velloso.

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