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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Histórias e lendas sobre as árvores do Japão

Certo dia, Kinto Fujiwara, grande Conselheiro de Estado, e o ministro de Uji, discutiam sobre qual era a mais bela das flores da primavera e do outono.
“A cerejeira está realmente entre as mais belas flores da primavera, o crisântemo, entre as do outono”, disse o ministro.
Então Kinto retrucou: “Como a cerejeira pode ser a mais bela? Você esqueceu a ameixeira”.
A discussão se concentrou somente entre a cerejeira e a ameixeira, sendo preteridas todas as demais. Por fim, Kinto, não querendo ofender o ministro, deixou de insistir na questão e apenas disse: “Tudo bem e que assim seja”, e acrescentou, “A cerejeira pode ser a mais bela das duas, mas uma vez que tenha visto as flores da ameixeira vermelha numa manhã ainda branca de neve da primavera, você jamais esquecerá sua beleza”.
Flores de Cerejeira "Sakura" (Foto: Aflo Images)
Flores de Cerejeira “Sakura”, sob o sol da primavera (Foto: Aflo Images)
Flor de Ameixeira "Umê" (Foto: Aflo Images)
Flor de Ameixeira “Umê”, coberta por neve (Foto: Aflo Images)
Cerejeira japonesa (Foto: Aflo Images)
Cerejeira japonesa (Foto: Aflo Images)
Ameixeira japonesa (Foto: Aflo Images)
Ameixeira japonesa (Foto: Aflo Images)

A suprema glória floral do Japão tem lugar em abril quando chega a florada das cerejeiras e, como descrito na discussão acima, a cerejeira (sakura) e a ameixeira (umê), entre todas, são as árvores mais queridas. E conforme descreveu o poeta Motoori: “Se alguém perguntar a você a respeito do coração de um verdadeiro japonês, apenas aponte para uma cerejeira florida brilhando sob o sol da primavera”.

Diz-se que a beleza da mulher japonesa é frequentemente comparada à flor da cerejeira, e sua virtude, à flor da ameixeira.

“Os espíritos das árvores”
Contam as lendas que as árvores japonesas possuem poderes sobrenaturais. O espírito das árvores fala pouco e quando perturbado desaparece dentro do tronco ou entre a folhagem. O espírito do deus Kojin, ao qual são dedicadas as velhas bonecas, vive na árvore Enoki.

PINHEIRO
Nos terrenos do grande Hakaba (cemitério) de Kwannondera, ergue-se um pinheiro sobre quatro enormes raízes que lembram quatro pernas gigantescas. Ao redor dessa árvore existe uma cerca com um santuário. Diante do santuário repousam cavalos em miniatura, feitos de palha, que são oferendas a Koshin (Deus dos Caminhos). As miniaturas representam súplicas para que os reais cavalos que eles simbolizam possam ser preservados das doenças.
No entanto, o pinheiro nem sempre está associado à Koshin. A magnifica árvore pode ser descrita, com propriedade, como a mais doméstica das árvores japonesas.
Muitos japoneses plantam pinheiros na entrada do portão de suas residências, pois acreditam que eles são portadores de boa sorte.
No San-ga-nichi, festival de três dias do Ano Novo, seus galhos decoram as casas, simbolizando vida longa e casamento feliz.

Pinheiros (Foto: SXC Photos)
Floresta de Pinheiros (Foto: SXC Photos)
Pinheiros entre cerejeitas (Foto: Aflo Images)
Pinheiros entre cerejeitas (Foto: Aflo Images)

“O majestoso pinheiro e o Imperador Go-Toba”
O Imperador Go-Toba, que detestava o coaxar dos sapos, certa vez sentiu-se incomodado com o barulho que um pinheiro fazia quando atingido pelo vento. O Ministro do Imperador deu ordens expressas ao pinheiro para ficar quieto. O pinheiro, em sinal de obediência, nunca mais se moveu. A partir de então o vento, o mais impetuoso, nunca mais conseguiu agitar seus galhos e nem a multidão de suas agulhas.

SALGUEIRO
Não há desmerecimento às outras árvores quando o salgueiro é referido como sagrado, pois a árvore carrega este título desde tempos longínquos, em diversas culturas e regiões de todo o mundo.
O salgueiro tem origem no Leste Asiático. O culto a esta árvore atravessou a Ásia passando por todo o oriente, chegando ao extremo oeste da Europa até os limites das Ilhas Britânicas. Dizem que, provavelmente, estivesse entre as principais árvores que ornamentavam os jardins da babilônia. Na Grécia, era consagrado às grandes deusas como Hera e Hécate. Normalmente dedicado às deusas noturnas ou lunares por sua forte ligação com o feminino.
A palavra “Witch” (bruxa) deriva de “Willow” (salgueiro). A árvore, desde a idade média, está associada às bruxas e as bruxas, por sua vez, ao feminino. É compreensível, portanto, que a árvore esteja ligada a ambos.
“Ele é acolhedor, é maternal e sua aparência misteriosa e, ao mesmo tempo protetora, parece esperar para lhe dar um abraço”.
Os antigos o viam como um ser maternal e acolhedor. Considerando a árvore como um símbolo da mulher.
Entretanto, apesar da forte ligação com o sexo frágil, o salgueiro é uma árvore muito resistente, principalmente ao fogo, sendo considerado inútil para a lenha.
De um simples galho de salgueiro, sem grandes cuidados, uma nova árvore brota e seu crescimento é relativamente rápido. Ele é bastante tolerante às secas e chuvas em excesso.
Na realidade, o excesso de água é muito benéfico ao salgueiro, é uma das árvores prediletas para cultivo à beira de lagos e rios, pois seu tronco nunca apodrece.
Os antigos consideravam a árvore sagrada, principalmente, por suas propriedades medicinais que contém, entre outros, poder anti-inflamatório e analgésico. Tal conhecimento ultrapassou os séculos e hoje é um dos mais eficazes e utilizados medicamentos, a “aspirina”. Desde tempos remotos já utilizavam a casca do salgueiro no combate a diversas enfermidades.
Tamanhos são os benefícios desta árvore que não deixam dúvidas sobre o motivo de carregar a alcunha de “Sagrada”.

Salgueiro "Higo" (Foto: Aflo Images)
Salgueiro “Higo” (Foto: Aflo Images)

“A esposa salgueiro”
Contam que em uma aldeia japonesa existia um imenso salgueiro que era amado por gerações sucessivas.
No verão, ele era um lugar de descanso, onde as pessoas, após o trabalho e o calor do dia, se reuniam para conversar até que a luz da lua se infiltrasse entre seus galhos, e nos dias de inverno, lembrava um enorme guarda-chuva coberto de neve.
Heitaro, um jovem lavrador, morava próximo desse salgueiro e, mais do que qualquer um da aldeia, estava em íntima comunhão com a imponente árvore.
Era a primeira coisa que Heitaro via ao acordar e a primeira que procurava ver quando retornava do trabalho no campo. O jovem rapaz tinha o costume de sempre acender um incenso e rezar à sombra do salgueiro.
Certo dia, um velho aldeão procurou Heitaro para comunicar que os homens da aldeia desejavam construir uma ponte sobre o rio e que precisavam usar o salgueiro para esse fim.
“Usar o salgueiro?”, perguntou Heitaro, escondendo o rosto entre as mãos. “Meu adorado salgueiro servir de madeira para construir uma ponte e suportar o pisar incessante de pés? Nunca, nunca, velho!”
Após se recobrar do choque, o jovem propôs dar algumas de suas próprias árvores para que eles poupassem o salgueiro.
Certa noite em que se sentava sob o salgueiro, Heitaro viu ao seu lado uma linda mulher olhando-o timidamente, como se quisesse falar.
“Respeitável senhora, vou para casa, pois vejo que está esperando alguém”, disse o respeitoso Heitaro, que compreendia e respeitava os que amam.
“Ele não virá”, respondeu a mulher com um lindo sorriso.
“É possível que o amor que ele sentia esfriasse? Oh, como é terrível o falso amor que só deixa cinzas e morte à sua passagem”, disse Hentaro em tom de lamento.
“Seu amor não esfriou, caro senhor”.
“E, no entanto, ele não vem! Que estranho mistério é esse?”
“Ao contrário, ele veio! Seu coração esteve sempre aqui sob o salgueiro”, disse a bela mulher com um sorriso radiante, para em seguida, desaparecer entre a neblina iluminada pela luz do luar.
A partir de então, passaram a se encontrar todas as noites sob o salgueiro. E a timidez da mulher havia desaparecido por completo.
Uma noite, Heitaro lhe disse: “Pequenina, você que parece vir do próprio salgueiro, quer se casar comigo?”
“Sim”, respondeu a bela mulher. “Chame-me de Higo (salgueiro em japonês) e por amor a mim, não faça perguntas, pois não tenho família e um dia você entenderá.”
Heitaro e Higo casaram e, no devido tempo, foram abençoados com um filho ao qual deram o nome de Chiyodo. O lar era simples, mas os habitantes eram as pessoas mais felizes de todo o Japão.
Um dia, porém, chegou a aldeia a notícia de que o ex-Imperador Toba desejava construir um templo em Kyoto, em homenagem ao deus Kwannon, e precisava  de madeira. Os aldeões disseram que desejavam doar o velho salgueiro para contribuir com a construção do templo.
Todos os argumentos de Heitaro, todo seu poder de persuasão e promessas de dar outras árvores em troca, foram em vão, pois nenhuma árvore substituiria o salgueiro em tamanho e beleza.
Chegando em casa, Heitaro contou o que se sucedia à esposa. “Pequenina, eles estão prestes a cortar nosso querido salgueiro! Antes de casarmos, eu não podia suportar essa ideia, mas agora, tendo você, quem sabe um dia eu possa superar essa perda.”
Nessa mesma noite Heitaro foi despertado por um grito agudo. “Heitaro”, disse a esposa. “Está ficando escuro! O quarto está cheio de rumores. Heitaro, você está aí? Ouça! Eles estão abatendo o salgueiro. Veja como sua sombra treme à luz da lua. Eu sou a alma do salgueiro! Os aldeões estão me matando, me cortando, me fazendo em pedaços. Como dói, como dói!”
“Salgueiro, minha esposa adorada, minha esposa salgueiro!”, soluçava Heitaro.
“Esposo”, disse Higo com a voz fraca e seu rosto agonizante bem junto ao dele. “Eu estou partindo. Porém, um amor como o nosso não morre aos golpes do machado, por mais fortes que sejam. Esperarei por Chiyodo e por você! Meu corpo está se quebrando! Meus cabelos se espalhando por todos os lados!”
Então, ouviu-se um tremendo estrondo vindo de fora. Era o grande salgueiro que jazia por terra com a esposa salgueiro que acabara de morrer com ele.

BONSAI
Bonsai em estúdio (Foto: SXC Photos)
Bonsai (Foto: SXC Photos)
Bonsai (Foto: Aflo Images)
Bonsai (Foto: Aflo Images)
Bonsai  ao ar livre (Foto: SXC Photos)
Bonsai (Foto: SXC Photos)
“As três árvores anãs”
No reino do Imperador Go-Fukakusa, vivia um famoso regente, Saimyoji Tokiyori, que, aos trinta anos, se retirou a um convento, onde permaneceu por muitos tempo, mas com frequência sua paz de espírito era tristemente perturbada por histórias de camponeses que padeciam nas mãos de empregadores tirânicos.
Na verdade, Tokiyori preocupava-se muitíssimo com o bem-estar de seu povo e, após cuidadosa ponderação, resolveu disfarçar-se e viajar de um lugar a outro e entender, bem de perto, o que se passava no coração dos mais pobres para depois fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir os maus-tratos impostos por seus empregadores.
Então, o bondoso regente partiu para realizar sua nobre missão e chegou a Sano, província de Kodzuke. Era inverno e uma forte nevasca fez com que o ilustre viajante se perdesse. Depois de muito vagar na esperança de encontrar abrigo, pois estava muito cansado, procurou se ajeitar da melhor forma que podia sob uma árvore e, para sua alegria, avistou uma cabana coberta de sapê em uma colina não muito distante de onde se encontrava.
Ao chegar à cabana, Tokiyori foi atendido por uma mulher. O regente, então, relatou que havia se perdido devido à tempestade de neve e que ficaria muito grato se ela lhe desse abrigo por uma noite. A boa mulher explicou que seu marido estava ausente e não ficaria bem para ela dar abrigo a um estranho enquanto encontrava-se sozinha. Tokiyori aceitou a abjeção com imenso respeito e, apesar da noite que passaria na neve, alegrou-se por encontrar uma mulher virtuosa.
Tokiyori não havia se afastado muito da cabana quando ouviu uma voz de homem que o chamava. Então ele parou e, virando-se, viu que um homem vinha correndo ao seu encontro. Esse homem lhe explicou que era o esposo da mulher que Tokiyori havia falado a pouco e, tomando-o por um monge peregrino, o convidou cordialmente a voltar e aceitar a sua humilde hospitalidade.
O nobre regente apreciou a simples refeição que lhe foi oferecida, pois desde cedo nada comera, mas se convenceu de que, visto que haviam servido milhete e não arroz, sob aquele teto reinava verdadeira pobreza, aliada a uma generosidade que o comoveu.
Após a refeição eles se reuniram junto ao fogo, que extinguia rapidamente. O bom dono da casa foi buscar carvão, mas não havia nenhum. Sem um minuto de hesitação, correu ao jardim coberto de neve e trouxe três vasos de árvores anãs (bonsai): um pinheiro, uma ameixeira e uma cerejeira.
No Japão, devota-se um grande amor às árvores anãs. Muito cuidado e tempo são despendidos com elas e, devido à sua idade e beleza ímpar, são amadas pelo povo japonês.
Apesar da censura de Tokiyori, seu anfitrião quebrou as árvores e fez uma bela e quente fogueira.
Foi após a esse incidente, que a um ocidental é impossível de compreender toda a sua inteireza, que levou Tokiyori a interrogar seu hospedeiro, cuja mera posse dessas árvores valiosas, em estima e financeiramente, sugeria que aquele homem generoso não havia nascido lavrador, mas que as circunstâncias o tinham forçado a isso. A conjectura do regente mostrou-se correta e seu hospedeiro, com certa relutância, explicou que era um samurai e que seu nome era Sano Genzaemon Tsuneyo. Acrescentou que fora obrigado a se dedicar à terra devido à desonestidade de um parente.
Tokiyori imediatamente lembrou-se do nome do samurai que estava diante de si e sugeriu que encaminhasse um pedido de desagravo. Sano, porém, explicou que apelar seria inútil, já que o regente anterior, bondoso e justo, havia morrido (era o que pensava) e seu sucessor muito moço. Declarou, no entanto, que se houvesse um chamamento às armas, ele seria o primeiro a se apresentar em Kamakura. Era o pensamento de um dia poder ser útil à pátria que amenizava seus dias de pobreza.
Esse tema, abordado de maneira tão ligeira, incorporava, na realidade, uma longa história, que, uma vez iniciada, só concluiu-se ao raiar do dia. E, quando se fecharam as comportas da tempestade, o sol surgiu iluminando uma extensa paisagem nevada. Antes de partir, Tokiyori agradeceu efusivamente a acolhida, e quando o gentil visitante estava longe foi que Sano lembrou-se de que não havia perguntado o seu nome.
Acontece que na primavera seguinte o Governo de Kamakura convocou seus guerreiros às armas. Sano, assim que teve notícia desse fato, apresentou-se imediatamente. Sua armadura desgastada, sua alabarda enferrujada e a pobre condição de sua montaria deram ensejo a que muitos dos resplendentes cavalheiros que encontrou em Kamakura fizessem comentários insolentes a seu respeito, coisa que Sano suportou sem dizer uma única palavra. Enquanto permanecia, triste figura, entre as brilhantes fileiras de samurais, notou-se a aproximação de um arauto montado em magnífico cavalo e portando um estandarte com o emblema do regente. Com voz clara e forte pediu ao cavalheiro mais mal-ajambrado que o acompanhasse à presença de seu senhor. Sano o seguiu de coração partido. Pensava que o regente o repreenderia por se apresentar de maneira tão miserável.
Esse humilde cavalheiro surpreendeu-se ao ser recebido com extrema cordialidade e, mais surpreso, ficou quando o cervo puxou o cortinado de um quarto ao lado do salão em que estava, quando reconheceu o regente Saimyoji Tokiyori ou, em outras palavras, o monge que, numa noite de inverno, abrigara em sua casa.
Tokiyori não se esquecera do sacrifício das árvores anãs. Desse sacrifício inteiramente desinteressado resultou a devolução das trinta aldeias das quais Sano havia sido despojado. E mais, Tokiyori, em sinal de gratidão, o presenteou com a aldeia de Matsu-idu, Umeda e Sakurai, que significam pinheiro, ameixeira e cerejeira em japonês.

 A árvore mais bonita do mundo
Árvore de glinicias, em Tochigi (Foto: Japan Guide)
No Ashikaga Flower Park, em Tochigi, fica uma árvore de glicínias incrivelmente linda e que é muitas vezes referida como a mais bonita do mundo (Foto: Japan Guide)

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